BRINQUEDO DE CASA É SÓ ÀS SEXTAS FEIRAS?

Primeiro dia de aula depois de longa e exaustiva greve, recebo a Turma da Água com muitas saudades. Gabriel olha pra mim, me cumprimenta, me dá um beijo e pergunta:

_ Laís, hoje é dia de brinquedo?

Essa pergunta tem se repetido desde fevereiro, porque embora a escola institua a sexta-feira como o dia do brinquedo de casa, eu nunca me importei se era segunda, quinta ou sexta-feira. Pelo contrário, no período de adaptação inclusive sugeri às famílias que se a criança se apegasse a algum objeto de casa e pedisse para levar para Emei, que elas permitissem, pois acredito que o brinquedo ou o objeto tornam-se uma ponte, um porto seguro que acalma e tranquiliza a criança e que em nada prejudica o cotidiano, no entanto, como a norma está colada e sacramentada no caderno de recados é natural que as famílias não deixem as crianças levarem. Por isso a pergunta, quase que diária do Gabriel e não foi diferente nesta segunda-feira de junho.

Muito bem, pedi para ele que conversássemos sobre isso na Roda de Conversa. Sentamos e então começamos falar à respeito. Perguntei o que achavam deste dia, se gostavam, se hoje era dia de brinquedo. Apesar de explicar que brincamos com brinquedos todos os dias, portanto, todos os dias são dias de brinquedos as crianças disseram, quase que em coro: _ Não, Laís, brinquedo de casa!

Ah, entendi eu respondi. Então eu perguntei se gostariam de trazer brinquedos outros dias e todos rapidamente responderam que sim.

Então o Gabriel disse:

_Mas se pegar antes do parque, você guarda ele no armário né Laís?

Não me contive e comecei a rir.

Interferi, mais uma vez, reforçando como tem sido utilizado o brinquedo de casa. Em que momento do nosso dia brincamos com brinquedo?

_ Depois dos ateliês, responderam.

Se os ateliês sempre têm trabalhos a serem feitos, podemos fazer de qualquer jeito, com pressa e sem capricho?

Muitos responderam que tínhamos que fazer direitinho.

Combinamos então que todos os dias brincaríamos com os brinquedos de casa também, depois dos ateliês e que os trabalhos deveriam ser feitos com capricho e responsabilidade, sem pressa. Mas surgiu outra consideração do Gabriel:

_ Minha mãe não deixa eu trazer!

Perguntei se gostariam de fazer um bilhete para a mãe. Todos aceitaram. Me levantei, peguei caneta e papel e o bilhete saiu:

“CARA FAMÍLIA, COMBINAMOS HOJE COM A LAÍS QUE PODEREMOS TRAZER BRINQUEDOS DE CASA TODOS OS DIAS. VAMOS BRINCAR COM ELES SEMPRE, DEPOIS QUE TERMINARMOS OS ATELIÊS COM CAPRICHO E RESPONSABILIDADE.

TURMA DA ÁGUA – 04/06/2012  “.

Reforçamos mais uma vez o vínculo afetivo. Sinto a confiança das crianças em mim e, com esta prática, elas percebem os seus deveres de um modo lúdico e responsável.

Por considerar o brincar como fonte de aprendizado e defender o brincar como direito, o “brinquedo de casa” pode e deve ter livre acesso. Através dele a criança aprende a emprestar, zelar pelo seu brinquedo e do outro, explicar sobre o brinquedo, contar sua história, a responsabilidade em guardar depois de utilizado. Vivenciamos os direitos e deveres, a solidariedade, a cooperação e a autonomia – pilares imprescindíveis da Pedagogia Freinet.

1- Nas rodas de conversa e diante da apresentação dos brinquedos é possível comparar, contar, observar cor, tamanho, peso, igualdades: classificação, seriação e muito mais. São, portanto, inúmeros objetivos desenvolvidos e as aprendizagens advindas desses. Percebo do que mais gostam através deste momento. Os meninos gostam muito de super heróis e as meninas de maquiagem. Aí está a necessidade de adquirir brinquedos seguros e que possibilitem a satisfação deste desejo infantil.

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2- De posse da sequência cotidiana dos nossos trabalhos, a seguridade do direito do brincar livre sempre está garantido, seja com brinquedos de casa ou com os brinquedos da escola que permitem o faz de conta e o simbolismo acontecerem.

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3- Deste modo brincamos diariamente dentro da sala, no parque, no pátio, no anfiteatro, no galpão, no tanque de areia, na Casinha de boneca com os mais variados brinquedos e jogos: bola, corda, bambolê, panelinhas, bonecas, carrinhos, baldes, pás e etc. 

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4 – Brincamos coletivamente, com a distribuição de papéis feita por elas mesmas e individualmente nos espaços da sala e fora dela: de casinha, de dirigir ônibus, de boneca, de carrinho, de montar, de ler, de amassar massinha, de jogar. Fora dela: dançar, dramatizar, pintar e muito mais.

5- Através do Jornal de Parede, as crianças propõem brincadeiras e projetos. Eu proponho brincadeiras novas e planos de trabalhos também.

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Minha inquietação encontrou respaldo teórico quando pude ler um artigo em que Brougère é citado. Em uma de suas obras coloca sobre o brinquedo e o brincar: a brincadeira destituída de suas principais características como a liberdade de tomada de decisão, entrada em situação imaginária, prazer, privilégio do processo em relação ao produto final, não pode ser considera como brincadeira no sentido por ele definido. O brincar deve ser livre e espontâneo para ser considerado brincadeira.

BIBLIOGRAFIA

BROUGÉRE,Gilles. Brinquedo e Cultura. Traduzido por Gisela Wajskop. 4 ed.São Paulo, Cotez,2001.

14 thoughts on “BRINQUEDO DE CASA É SÓ ÀS SEXTAS FEIRAS?

  1. Parabens Laís eu tambem nunca me importei com o dia da semana,talvez seja mais complicado trabalhar com a faixa etária em que trabalho, que é AGII.

    1. Sim Sueli. O AGII é composto de crianças menores e egocêntricas para o emprestar e coompartilhar, no entanto, brincam mais sozinhas, por conta da maturidade…o que eles mais sentem falta quando estão longe da família, além da própria família é da chupeta, do cheirinho, paninho…Outra realidade, que estou tentada a abraçar em 2013. Vou pedir dicas pra você. Obrigada pelo comentário. Bjs e bom ano!

  2. Olá Laís, gosto muito do seu trabalho!! Vejo em você um exemplo de professora e quando eu estiver uma sala quero me espelhar no seu trabalho! Sou professor adjunto e trabalho mais como monitora do que professora. Sei que o monitor também tem que desenvolver atividades com as crianças, mas a correria do dia a dia no período da tarde é tão intensa que quase não sobra tempo para desenvolvermos algo além dos cuidados com higiene e alimentação das crianças. Bjus e parabéns pelo seu trabalho!!!!!

    1. Oi Josi…obrigada pelas palavras. O trabalho do monitor acaba sendo o cuidar e é uma pena, pois conheço muitas que têm mais aptidão que muuuuuuuuitas professoras. Uma pena. O adjunto foi um tema que discutimos muito nesta greve, por conta das disfunções. Vou lutar muito daqui em diante. Acho que há como mudar, mas se a parte sofredora (nós), não reclamarmos, a situação fica cômoda mesmo para esses corruptos. Adoro o meu trabalho e tento me melhorar enquanto educadora dia a dia. Um beijo e boa sorte. Quem sabe vc não vai para a Celisa em 2013. Seria um prazer!

  3. Oi Laís, eu também sempre fiquei na dúvida: traz ou não traz todos os dias? Neste ano eu ainda não tinha combinado com as crianças nada sobre isso. No ano passado, eu havia deixado um dia para trazer o brinquedo de casa e eu achava legal, pois era um dia especial. A roda de conversa era pra mostrar o brinquedo, depois do ateliê, todos brincávamos juntos com os brinquedos… Vou repensar o assunto. Beijo, Lili.

    1. Eu sempre achei o dia determinado, mais cara de “descanso de professor”, assim como o dia do vídeo, em muitas escolas. Mas se pensarmos na quantidade de objetivos possíveis e se conseguirmos combinar que o brinquedo agregue valor ao dia da criança é excelente. Claro que isso faz parte do amadurecimento da turma e fortalecimento do vínculo entre a educadora e as crianças. É aquele momento que a pensamos: POSSO CONFIAR NESSA TURMA E ELES, A MESMA COISA. Inventamos histórias tb com os brinquedos. Qualquer dia posto uma. Um beijo.

    1. Obrigada Ana Paula. A pedagogia Freinet é a Pedagogia do Trabalho e do Bom Senso. Exercitamos a responsabilidade em tudo o que fazemos e procuro conversar com as crianças para que entendam que precisamos uns dos outros, logo o que combinarmos precisa ser feito e o mais bonito que conseguirmos. Bjs

  4. É tão bom saber que existem professoras envolvidas com a educação e a formação de nossas crianças! Parabéns! “Quando eu crescer, quero ser assim…!”

  5. Oi, gostei muito do seu profissionalismo e amor a sua profissão…. na escola que a minha filha estuda, a professora não deixa a minha filha levar brinquedos porque alega que a menina é distraida e não tem responsabiliade com o mesmo… sim minha filha é distraida, e deixa as coisas jogada, é uma questão que estou trabalhando com ela… mas não acho a professora possa impedi-la de levar seu brinquedo no dia certo… e acredito que a professora deva ajudar as crianças a manter suas coisas em ordem, que desenvolva atividades com as crianças e seus brinquedos, e não use o dia como “descanço”.. o que vc acha???? bjs

    1. Obrigada Adriana pelo comentário. Sabe que concordo com você? Aposto que se a professora sentar-se com a sua filha e brincar de organizar suas coisas, ela vai amar e querer repetir? Quando a professora perceber que ela está se esquecendo de algo, pode lembrá-la do dia que brincaram e como fizeram. Com a Turma da Água hoje convidei quem gostaria de me ajudar a separar alguns brinquedos e aquele que eu menos esperava, sentou-se ao meu lado e me ajudou. O Gabriel é uma criança linda, mas desatento em alguns momentos. Esquecia muito copo, roupas, brinquedos, mas o aprendizado se constrói com os erros. Fiquei feliz hoje. Definitivamente, dia de brinquedo não é dia de descanço para o professor. Eu costumo andar e sentar entre elas para ouvir suas fantasias e imaginações. Percebo muito do momento emocional e afetivo das crianças quando ouço suas falas espontâneas. Bom, é isso. Um beijo e tudo de bom. Espero vcocê mais vezes por aqui. Tudo de bom!

      1. Obrigada Laís!! E com certeza irei passar muitas vezes por aqui!! Também sou educadora e confesso não ter dado muita ênfase na pedagogia Freinet, mas com os seus comentários e artigos fiquei muito tentada a conhecer mais a fundo. Parabéns pelo maravilhoso trabalho!! bjs

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